Os medicamentos que atuam nas vias do GLP-1 e os agonistas duplos, como semaglutida e tirzepatida, transformaram o tratamento do excesso de peso e da obesidade.
Mas emagrecer não significa apenas ver o número da balança diminuir.
Quando o apetite reduz significativamente, a pessoa pode passar a consumir muito menos alimentos e, consequentemente, ingerir quantidades insuficientes de proteínas, fibras, vitaminas, minerais e líquidos. Além disso, podem surgir náuseas, constipação, diarreia, distensão abdominal e outras alterações gastrointestinais.
É justamente nesse momento que a nutrição individualizada se torna parte importante do cuidado.
O acompanhamento começa antes do medicamento
O ideal é que o paciente não comece uma terapia para emagrecimento sem antes avaliar seu estado nutricional.
No acompanhamento nutricional, podem ser avaliados:
- Composição corporal e massa muscular;
- Alimentação habitual e ingestão de proteínas;
- Hidratação;
- Funcionamento intestinal;
- Sintomas digestivos;
- Qualidade do sono;
- Exames laboratoriais e possíveis deficiências nutricionais;
- Rotina, comportamento alimentar e nível de atividade física.
A partir dessas informações, a alimentação pode ser planejada de forma individualizada e acompanhada ao longo do tratamento.
Durante o tratamento: não é só sobre perder peso
Com a redução do apetite, comer menos não significa necessariamente comer melhor.
Por isso, é importante organizar a alimentação para favorecer a ingestão adequada de:
Proteínas → importantes para a manutenção da massa muscular.
Fibras → ajustadas individualmente, especialmente quando existem constipação, distensão ou outros sintomas intestinais.
Água e eletrólitos → a ingestão de líquidos merece atenção, principalmente quando a alimentação e a ingestão hídrica diminuem.
Vitaminas e minerais → suplementos não devem ser utilizados indiscriminadamente; quando necessários, devem ser definidos de acordo com avaliação clínica e nutricional, exames e necessidades individuais.
Alimentos de verdade → mesmo com menor volume alimentar, é possível priorizar alimentos nutricionalmente densos e uma alimentação equilibrada.
E o intestino?
Os medicamentos que atuam nas vias do GLP-1 podem alterar o funcionamento gastrointestinal e estão associados a sintomas como náuseas, constipação, diarreia e sensação de estômago cheio.
Por isso, pessoas que já apresentam alterações intestinais precisam de atenção especial.
Sintomas persistentes como distensão abdominal, gases, alteração do trânsito intestinal, desconforto e mudanças importantes no padrão das evacuações devem ser avaliados individualmente.
Quando existe suspeita de alterações como supercrescimento bacteriano do intestino delgado (SIBO), a investigação deve ser feita de maneira adequada, evitando simplesmente atribuir todos os sintomas ao medicamento.
Depois dos 40: emagrecer preservando o corpo
Para mulheres a partir dos 40 anos, o planejamento nutricional merece ainda mais atenção.
O objetivo não deve ser apenas reduzir peso, mas cuidar da composição corporal, da massa muscular, da força, da qualidade nutricional da alimentação e da saúde metabólica.
A perda de peso pode vir acompanhada de redução de massa livre de gordura, e por isso estratégias como ingestão adequada de proteínas e exercício de resistência são importantes para preservar função e massa muscular.
E existe também uma preocupação estética muito frequente: flacidez e alterações na aparência da pele durante o processo de emagrecimento.
A nutrição não impede todas as alterações decorrentes da perda de peso, mas uma abordagem individualizada pode ajudar a garantir que o organismo receba os nutrientes necessários durante esse processo.
Antes, durante e depois
Um dos maiores erros é pensar que o acompanhamento termina quando a pessoa atinge o peso desejado.
O planejamento nutricional deve acompanhar diferentes fases:
ANTES
Avaliar alimentação, composição corporal, intestino, hidratação, exames e possíveis deficiências.
DURANTE
Adaptar a alimentação à redução do apetite, controlar sintomas gastrointestinais, garantir proteína e nutrientes e acompanhar a composição corporal.
DEPOIS
Construir estratégias para manutenção do peso, qualidade da alimentação, atividade física e prevenção do reganho de peso.
A literatura mais recente também destaca a importância de pensar na manutenção a longo prazo, inclusive quando há redução ou suspensão do tratamento farmacológico.
Meu olhar para o emagrecimento
Emagrecimento não deve ser apenas sobre perder quilos.
É sobre cuidar do organismo durante todo o processo.
Por isso, no meu atendimento nutricional, busco compreender quem é o paciente, como está sua alimentação, seu intestino, sua composição corporal, seus exames, sua rotina e suas necessidades individuais.
Quando existe indicação médica para utilização de terapias baseadas em GLP-1, a nutrição pode caminhar junto ao tratamento, ajudando o paciente a alimentar-se adequadamente, preservar sua saúde e construir hábitos que possam permanecer além do período de uso da medicação.
Porque o medicamento pode fazer parte do tratamento.
Mas a alimentação continua sendo parte fundamental do cuidado.